Tragédias humanas
Setembro 18, 2007 at 12:44 am | In cinema, literatura, sociedade, valores | 3 CommentsTer um bom emprego, ser bem sucedido e ter uma família linda: essa é a descrição do que muitas pessoas imaginam para o seu futuro. Porém, elas não escapam das imperfeições e fraquezas humanas. Este é um tema muito bem trabalhado no filme “Instinto Secreto”, o segundo dirigido por Bruce A. Evans.
O filme conta a história de Mr. Brooks, um empresário (Kevin Costner) que tinha tudo, mas escondia um vício: matar pessoas. Ele estava há dois anos sem alimentar o vício, mas tem uma recaída e é flagrado por um jovem engenheiro. Além disso, é investigado por uma policial (Demi Moore). A partir daí, a trama se desenrola.
A grande crítica do filme é em relação às tragédias humanas. Lembrou- me imediatamente de Rubem Fonseca, o escritor que para alguns inaugurou uma nova corrente literária – a brutalista. Assim como o filme de Evans, Rubem Fonseca aborda a violência urbana e a solidão, envolvidas em tramas policiais, como forma de mostrar a hipocrisia das elites regionais. Isso é evidenciado em suas obras como os contos Passeio Noturo I e II, do livro Feliz Ano Novo.
Como no filme, o conto fala de um homem que matava pessoas – neste caso, para aliviar o stress do dia-a-dia. A fragilidade da vida, a podridão do ser humano e a vontade sempre presente de transgredir regras são muito bem exploradas em ambas as narrativas. Fica a dica de um ótimo livro e de um filme que prende à atenção do início ao fim.

Rubem Fonseca
10 coisas para ter antes de morrer
Setembro 16, 2007 at 6:30 pm | In consumo, revistas, sociedade, valores | 5 CommentsQue nós vivemos no capitalismo, e que o individualismo e os projetos pessoais são super-valorizados nós já sabemos. Isso se mostra muito presente na mídia e onde quer que paremos para percebê-los.
Foi numa dessas revistas para mulheres.. edição especial da Veja. O título da “reportagem” era “10 coisas para ter antes de morrer”. Eram tópicos, cada um por página, apenas descrevendo o produto e ilustrados com uma foto dele. O primeiro era um jogo de lençóis de algodão egípicio, seguido por coisas como um par de sapatos Manolo Blahnik, um anel solitário de 2 quilates da Tiffany, o celular touch screen da LG com design Prada, entre outros.
São os meios de comunicação trabalhando arduamente para a imposição de padrões de vida e, principalmente, de consumo. Vamos pensar nas pessoas que não podem comprar o que diz uma revista que todos devem ter. Está excluída. Ou até mesmo em quem pode comprar mas se questiona “porque eu tenho que querer isso?”. Outra excluída. Mais uma prova da veracidade da seguinte afirmação: o critério de inclusão é a capacidade de consumo. Se você não consome, está fora. Sinto Muito. Ninguém vai se importar com isso.
Mas a melhor parte da “reportagem” ainda não foi dita: a décima coisa para se ter. “Um dia inteirinho só para você - de folga do trabalho, dos filhos e do marido. Para se divertir, ir à massagem ou pensar na vida”. É quase como um consolo: se você é excluída e não pode comprar, tire o dia livre. Além de encarar como um fardo os papéis sociais que a maioria das mulheres assume: mãe, esposa e profissional.
As revistas femininas em geral esquecem que, talvez, os objetivos da vida não se resumam a consumir. E que ainda existem pessoas que percebem isso claramente…
Participação na Política
Setembro 13, 2007 at 4:06 pm | In política, relações de poder, sociedade | 1 CommentNa primeira semana de setembro, a semana da pátria, ocorreu em todo o Brasil um plebiscito popular entitulado “A Vale é Nossa”. O plebiscito visava consultar a população sobre a privatização da empresa CVRD, cuja legalidade é questionável, uma vez que a empresa foi leiloada por muito menos do que valia e, segundo alguns juristas, desrespeitou a Lei de Licitação.
Tudo bem. Mas o que é um plebiscito? Está na Wikipédia:
“é uma consulta ao povo antes de uma lei ser constituída, de modo a aprovar ou rejeitar as opções que lhe são propostas.”
Os movimentos sociais, pastorais e centrais sindicais que organizaram o plesbiscito se propuseram a isso: pediram audiência com o governo federal e se dirigem a candidatos a eleições pedindo um posicionamento.
Mas e a população? É traço marcante na nossa sociedade a falta de participação nas questões políticas, bem como o descrédito com os políticos. A grande mídia faz questão de sustentar ativamente o quanto nossos políticos são corruptos, e o quanto nós precisamos cada vez menos do Estado.
Por isso, o debate levantado pelo plebiscito é interessante: faz as pessoas pensarem na coresponsabilidade que têm pelas decisões tomadas em seu país. Faz as pessoas refletirem sobre a necessidade do Estado como órgão administrador e regulador da sociedade, pra garantir o seu bom funcionamento.
Colocado o debate, parece que a maioria das pessoas é contra a privatizalção: já exitem mais de 100 ações na justiça contra ela!
Uma crítica ao plebiscito é em relação às perguntas, que claramente induziam à resposta negativa. Mas essa crítica não anula o fato de que ele troxe benefícios para a população por colocar questões importantes em discussão.
O vídeo abaixo mostra as perguntas (e respostas…) do plebiscito:
Simpsons - O filme
Setembro 6, 2007 at 4:12 pm | In cinema, meio ambiente, sociedade, valores | 3 CommentsCríticas nunca faltaram no seriado Simpsons, existente há 20 anos e transmitido semanalmente na TV americana há 19. A crítica da vez, principal tema do filme - em cartaz desde o dia 27 de julho - é em relação ao meio ambiente. A politicamente correta Lisa se engaja nessa luta pela despoluição do lago Springfield, e seu próprio pai o polui de uma forma que o governo passa a interferir no destino da cidade.
Fazendo jus ao seriado, é evidente no filme a crítica bem humorada sobre o modo de vida , a sociedade e o pensamento do norte-americano. A começar pelo fato de ninguém se importar com o meio ambiente, das pessoas fecharem as portas na cara de Lisa e vaiarem o cantor que alerta para este perigo. Vamos ver até quando a natureza aguenta, então…
O filme também levanta algumas outras questões interessantes, em cenas curtas e marcantes. É o caso da reação das pessoas na hora do perigo: os que estavam na Igreja vão ao bar, e os que estavam no bar vão à Igreja. É uma falta de referências presente na sociedade: ninguém sabe direito ao que se apegar, e, na dúvida, se apegam às duas opções..
O mais marcante em todo filme, porém, é o nosso querido Holmer. Como ele consegue ser tão perdedor? Chega a ser incômodo. Há a cena em que brinca com o filho, o desafiando a fazer coisas infantis e não admitindo sua culpa; outra em que Bart chora por não ter um pai atencioso e Holmer beija a barriga de seu porco-aranha de estimação; e mais uma em que tudo que ele faz dá errado.
Holmer é o típico cara que tem bom coração, mas que só pensa nele mesmo, não tem consciência política nenhuma, não pensa na consequência dos seus atos, faz tudo sem más intenções e sempre se dá mal. Para Wiliam Bonner, os telespectadores do Jornal Nacional são todos “Holmer”. Uma bela visão da nossa sociedade, não?
Enfim, depois de 158 versões, o resultado final de Simpsons - O Filme ficou muito bom! E vale a pena refletir sobre as críticas presentes nele!
Confiram o trailer (dublado):
Holisticamente
Setembro 5, 2007 at 3:35 pm | In literatura, relações de poder, sociedade, valores | 3 CommentsConta Luis Fernando Verissimo a história de um casal. A esposa era muito culta, sábia, e sempre falava sobre todos os assuntos nos encontros com os amigos. O marido, porém, era mais quieto, e sempre que abria a boca pra falar a esposa o reprimia, dizendo que ele só falava besteira.
Um dia, cansados daquilo, os amigos se reuniram e treinaram o marido. Combinaram um encontro e, depois de um longo discurso da esposa, o marido falou que discordava dela. Ela quase teve um troço! Como assim? Do que ele estava falando? “Você não está vendo a coisa holisticamente”, disse o marido. Daí em diante, a esposa teve tanto orgulho do marido que até a vida sexual dos dois melhorou.
Essa pequena história, presente no livro “O Melhor das Comédias da Vida Privada”, mostra a importância que damos a termos tidos como difíceis. Se uma pessoa fala com pompa e segurança, nem importa o que ela disse. O mesmo vale para os textos acadêmicos. Havia uma época em que o “intelectual” era o que não era acessível a todos.
Muitas críticas vieram, como mostra o Caso Sokal. Segundo Alan Sokal, muitos intelectuais “abusam da ciência”, e diz que textos incompreencíveis podem não dizer nada. Alguns usam como argumento que tornar textos científicos mais fáceis de ler é dizer que os pessoas não tem capacidade para compreendê-los. Pode ser. Mas abusar de palavras pomposas para se vangloriar da ignorância dos outros, como fazem alguns, é erro crasso. Aposto que eles não vêem a coisa holisticamente.
A Elite é o Lado Bom do Brasil
Setembro 5, 2007 at 10:52 am | In relações de poder, revistas, sociedade | 1 CommentEssa chamada realmente chamou a atenção, com o perdão do trocadilho. Ela foi usada para falar de um livro lançado pelo sociólogo Alberto Carlos Almeida, entitulado “A Cabeça do Brasileiro“. O livro consiste em uma pesquisa de campo realizada pelo instituto DataUff, da Federal Fluminense. Foram entrevistadas 2363 pessoas de 103 munípios diferentes, e elas respondiam a perguntas como “Se os moradores permitirem, os empregados devem usar o elevador social?”. Logicamente, a maioria das pessoas com nível superior respondia que sim, e a maioria dos analfabetos respondia que não.
Dessa forma, a reportagem reduz todas as divergências de opinião ao nível de ensino que a pessoa recebeu. E o contexto social? Uma pessoa usou elevador de serviço a vida toda. Por que, do nada, vai achar que deve usar o elevador social? Ela não tem ética e valores por causa disso? Francamente.
O que mais se destaca na reportagem, publicada na revista Veja do dia 22 de agosto de 2007 (sério?), é que só se começa a falar do livro na segunda página. Até então, é dito como a elite é boa para o Brasil, porque ela traz a modernidade, ela tem os pensamentos “certos”, tem a “iniciativa, energia criadora, conhecimento avançado e valores democráticos” necessários para desenvolver o país. Pobre do que não tem dinheiro! (outro trocadilho…)
A impressão que se tem é que com dinheiro e estudos você sabe o que é ético, e sem dinheiro e escolaridade você apenas perpetua a desigualdade. Sim, quem é pobre quer ser pobre!
Agora sim, a cabeça do brasileiro foi desvendada… E viva a elite do Brasil!
Cultura…
Setembro 3, 2007 at 1:46 pm | In conceitos de cultura | 3 CommentsMuitas pessoas confundem cultura com manifestações artísticas. Porém, a arte apenas faz parte de um universo muito maior de pensamentos, ações e instituições que compõem a cultura. Já dizia o antropólogo Edward B. Tylor:
“cultura é um todo complexo que abarca conhecimentos, crenças, artes, moral, leis, costumes e outras capacidades e hábitos adquirido pelo homem como integrante da sociedade”
Este blog, portanto, irá refletir sobre acontecimentos e fatos do dia-a-dia, dos quais será exposta uma idéia central, comum a todos eles: a influência da cultura. Ela se manifesta onde menos imaginamos ou cremos que está presente. Aqui, será evidenciado que ela é construída e construtora do homem.
A proposta é fazer tudo isso de maneira agradável e próxima da nossa realidade. Espero que gostem..
E sejam Bem-vindos!
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